Igreja do Divino Espirito Santo de Ota

Os trabalhos de arqueologia e antropologia efectuados na Igreja do Divino Espirito Santo na freguesia da Ota orientaram-se para a avaliação do potencial arqueológico no âmbito das obras de reabilitação deste edifício religioso.

A intervenção arqueológica cujos resultados se relatam no presente documento permitiu confirmar a presença de enterramentos cristãos do século XV a XVII, devido ao espólio associado característico dessas cronologias, nomeadamente, moedas e botões em bronze, solas de sapato pontiagudas, cachimbo caulino, contas de terço em osso e vidro, crucifixo e medalhas de rosário, etc.

Os contextos funerários revelaram-se perturbados nos níveis de superfície por intervenções realizadas no edifício e/ou reutilização do espaço funerário e preservados nos níveis imediatos, indicando uma continuidade de enterramentos sob o nível intervencionado.

A escavação dos contextos referidos em articulação com a presença do antropólogo biológico contribuiu para o conhecimento mais amplo da população da Ota, no que concerne ao estrato social, profissão, patologias, idade média de vida da população, diagnose sexual, vestuário, hábitos religiosos e cronologias.

Procedeu-se à inumação individual de indivíduos adultos, de ambos os sexos e indivíduos de idade imatura, incluindo recém-nascidos, em sepulturas sem estrutura, escavadas directamente no depósito sob o piso da igreja, utilizadas inúmeras vezes ao longo do tempo, possivelmente, por membros da mesma família.

Este costume funerário perturbou os enterramentos anteriores, sendo os ossos dos mesmos remexidos e de novo colocados em estado desarticulado ao lado do novo enterramento e/ou misturados com a terra que o cobre.

Observaram-se vestígios de madeira, pregos, tachas e tecido revelando a presença de caixão em alguns dos enterramentos. A presença de alfinetes noutros casos sugere a existência de um sudário, denotando uma prática de enterramento em que o corpo era sepultado sobre a terra apenas amortalhado.

Quanto à tipologia das sepulturas, estas apresentam-se sem estrutura tumular, escavadas directamente na terra à excepção de um enterramento que apresenta uma base sepulcral. Não foi detectada cobertura tumular em qualquer sepultura, o que não elimina a possibilidade de terem existido anteriormente.