Diagnóstico Arqueológico da Rua dos Lagares 74, Lisboa

A comunidade muçulmana de Lisboa recebeu o foral em 1170, de D. Afonso Henriques, facto que permitiu o seu estabelecimento num espaço pré-determinado, fora do perímetro urbano. A partir de finais do século XIV o conceito de mouraria para os cristãos torna-se mais abrangente havendo uma expanção geográfica da área. Nesta zona a organização espacial dos locais públicos é realizada em função da comunidade muçulmana, existindo a Mesquita Grande, a Mesquita pequena, a escola e os banhos. A fisionomia das ruas traduz igualmente influências urbanísticas muçulmanas, nomeadamente as ruas sem saída e multiplicidade de becos.

Trabalhos arqueológicos anteriores efectuados no Quarteirão dos Lagares, permitiram identificar, entre outras evidências, contextos arqueológicos relacionados com a actividade oleira enquadrados entre o século XV e XVI. No decurso da intervenção arqueológica da Era, arqueologia - no âmbito da requalificação de um edifício da Rua dos Lagares -, foi possível complementar as informações que se conheciam para a zona. 

Por ordem cronológica, distingue-se uma primeira utilização do sítio enquanto espaço de necrópole cristã ou judaica, ocupando em extensão toda a área do jardim e do edifício entre a cota 44.00 e 40.85m, respeitando a pendente natural do local. 

Em certo momento, o local deixa de funcionar enquanto cemitério, sendo aterrado e o terreno regularizado em pendente. Posteriormente, o local é convertido em área de despejo de resíduos industriais das várias olarias que ali funcionavam, figurando-se uma aparente dessacralização do local. 

Em fase posterior a área volta a ser reocupada enquanto espaço de morte, associado ao culto islâmico, interrompendo o uso da área enquanto local de despejos. A necrópole é de menor dimensão, menos extensa e de menor potência, estendendo-se entre o interior do edifício e o jardim (NO), na sua meia-encosta em direcção à Graça. Esta realidade poderá corresponder ao Almocavar islâmico de acordo com a bibliografia de época. 

A escavação encontra-se em fase final de execução, seguindo-se o tratamento e estudo do material arqueológico e antropológico que permitirão trazer um conhecimento mais aprofundado do local.