Parque de Estacionamento Subterrâneo da Praça de D. Luís, Lisboa

Concretizada em 2011, esta intervenção visou a realização do diagnóstico arqueológico para um melhor planeamento e gestão do projecto de construção do Parque de Estacionamento Subterrâneo da Praça de D. Luís, em Lisboa, atendendo aos resultados das acções de acompanhamento arqueológico no mesmo local.

Os trabalhos permitiram a identificação, na sondagem 3, da linha de cais, associada a uma escadaria visível na planta de Filipe Folque, que se encontrava localizada a NW do Praça de D. Luís I., perto do actual edifício dos Correios. Foi ainda possível aferir a existência de mais 2 fases de reformulação deste espaço, aproveitando a estrutura portuária e respectiva escadaria de acesso da 1.ª fase de ocupação.

Os materiais recolhidos pertenciam todos a níveis de aterro, não sendo possível, desta forma, proceder à datação dos contextos para além das analogias com a cartografia existente sobre a cidade de Lisboa. As restantes sondagens realizadas revelaram a existência de vários níveis de aterro sobre o nível de areia de praia, correspondente ao nível freático do leito do rio Tejo.

Como medida de minimização, propôs-se a escavação arqueológica e o registo da área de detecção de estruturas arqueológicas – no prolongamento da área da sondagem 3 (zona Nordeste do Parque). Além disso, aconselhou-se o acompanhamento arqueológico permanente e sistemático da remanescente área, após implantação da ensecadeira para construção do Parque, e posterior estabelecimento de medidas específicas de minimização em função do que se detectasse do ponto de vista patrimonial.

 

NOVEMBRO DE 2011 A MAIO DE 2012

Deliberados na sequência da deteção de achados arqueológicos em ações de acompanhamento e sondagens de diagnóstico efetuadas pela ERA no local, estes trabalhos arqueológicos no Parque de Estacionamento da Praça Dom Luís I decorreram entre Novembro de 2011 e Maio de 2012.

Nesta intervenção foi exposto, registado, ortofotografado e desmontado um conjunto estrutural diacrónico, do qual se destacaram quatro estruturas portuárias: um cais de madeira e alvenaria (segunda metade do século XVII), um estaleiro naval de grandes dimensões (segunda metade do século XVII), o cais do Forte de São Paulo (finais do século XVII) e o cais da Casa da Moeda (século XVIII).

Entre este conjunto assumiu particular relevo o estaleiro naval, que se interpretou como provável estrutura integrante da Companhia Geral do Comércio do Brasil, criada em 1649, cujas instalações — a sul da Igreja de São Paulo — viriam a ser ocupadas em 1720 pela Casa da Moeda.

Assessorada pelo CHAM – Centro de História Além-Mar da Universidade Nova de Lisboa, esta intervenção arqueológica foi executada por uma equipa interdisciplinar, integrando investigadores da arqueologia terrestre, náutica e subaquática, cientistas de paleobotânica e geomorfologia. Teve uma expressão assídua em eventos científicos e foi intensamente acompanhada pelos media. O trabalho de investigação em curso assumiu, desde o início, uma dupla componente de rigor científico e divulgação para um público generalizado.

A complexidade arquitectónica do estaleiro naval descoberto na zona urbana onde se instalavam os bairros de marinheiros e as companhias estatais de exploração dos territórios ultramarinos, integra, de forma muito interessante, uma extensa quantidade de mais de setenta peças de navio reaproveitadas na sua estruturação. As evidências materiais recolhidas em contexto arqueológico preservado, quer de âmbito artefactual, quer botânico, atestam a amplitude cultural, social e económica da Diáspora Portuguesa dos meados da Época Moderna, quando Lisboa assumia no mundo um papel de inequívoca importância.

 

2013

Em Janeiro de 2013, na sequência da retoma do acompanhamento arqueológico da escavação mecânica na área NO do empreendimento, que correspondeu ao levantamento dos sedimentos remanescentes (com uma potência, ainda, de cerca de 1 m a 1,50 m) sob o Estaleiro Naval (grade de maré) acima referido (aqui registado em Fevereiro de 2012), foi identificada uma sétima realidade arqueológica diversa das observadas, mas não menos importante.

Esta faz recuar até à época romana os vestígios de utilização/ocupação desta área da cidade de Lisboa, tratando-se de um fundeadouro romano, que integra uma densa mancha de cerâmica de cronologia romana e um elemento náutico (de um barco coevo) o que documenta as boas condições naturais desta zona da cidade de Lisboa, para acostagem, desde a antiguidade.

Em traços largos, trata-se de uma grande e concentrada mancha (que se distribuía numa área de cerca de 254 m2) de cerâmica de cronologia indubitavelmente romana de ampla diacronia (maioritariamente constituída por ânforas, embora com presenças de cerâmica comum e cerâmica fina e de alguns elementos orgânicos). Entre estes elementos, identificaram-se alguns grandes toros de madeira dispersos, sendo o mais interessante um grande barrote (com cerca de 9 m) de orientação NE/SO e que apresentava entalhes e mechas, elementos técnicos que sugerem esquemas de fixação característicos da construção naval romana. A presença de incrustações calcárias nas peças cerâmicas e o facto do elemento em madeira se apresentar colonizado por teredo sugere que o contexto se encontrava em ambiente húmido (de submersão).
 
O carácter de raridade e excepção deste achado determinaram a intervenção arqueológica de delimitação e caracterização, numa primeira fase, e posteriormente de registo integral desta realidade como medida de mitigação de impacte.